sábado, 13 de fevereiro de 2010

Carta aos líquidos amarelos (crônica)

Eu e minha família temos uma cadela filhote. Ela é muito mal-educada - parece que seus ouvidos são seletivos; Sofia só ouve o que quer. Traduzindo: enquanto seus dejetos, os quais deveriam estar na grama, penetram no tapete da sala, ela não percebe nossos berros irados de repreensão. Depois da gritaria absoluta, a realidade: alguém deve limpar o xixi.

Meu pai e meu irmão geralmente estão ocupados a essa hora (dormindo), então as candidatas à limpeza somos eu e minha mãe. Teoricamente, o dono de uma mercadoria (seja ela alguém ou algo) é quem pagou por ela. Aqui em casa, há dois tipos de proprietário: aquele que cuida da propriedade e aquele que só desfruta dela. Eu cuido da cadela.

Uma vez que cuidar dos cachorros é uma responsabilidade minha, os excrementos deles também o são. Com esse e outros argumentos, mamãe encerra a discussão travada entre nós (como se adiantasse dizer alguma coisa). Resignada por ter perdido a guerra, limito-me a colocar uma toalha de papel sobre o líquido amarelado, que a essa hora já está seco.

Outros xixis vão aparecendo pela casa (junto a eles surgem pegadas molhadas - masculinas, é claro). Graças a uma energia transcedental e onipotente, meu pai e meu irmão acordam. Minha esperança se renova: agora eles podem limpar a sujeira da Sofia por mim. Doce ilusão. Eles dirigem-se à cozinha (por que será?) e retornam aos quartos. Sua próxima atividade sedentária provavelmente é assistir televisão.

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